domingo, 21 de junho de 2015

Ô LUGARZINHO, VIU...OS PRIMÓRDIOS

Como já entrega o nome do filme "Se Beber, Não Case", eu deveria ter me apaixonado pelas garrafas ao invés de ter me apaixonado por uma mulher! Isso por que o meu casamento me fodeu em ambos os sentidos! A gente sempre pensa em casar e ser feliz para sempre mas, quando não é seu parceiro de casamento que pisa na bola com você, são seus pais que pisam (mais ainda) durante o período em que você foi casado...

A merda toda começou a feder quando me casei e fui morar com "o grande amor da minha vida" no Interior de São Paulo (mais precisamente no município de Marília)! Nesse ínterim, meus pais devem ter pensado : "nossos filhos estão encaminhados pra vida...logo, vamos cuidar das nossas"! Ledo engano...enquanto meus pais cuidavam da vida deles, eles estavam, indiretamente, tratando de encaminhar a minha vida pro fundo do buraco em que me meti casando com o grande amor da minha vida...


Enquanto eu achava que estava sendo feliz ao lado de minha ex-esposa e meu filho, meus pais tiveram a (in)feliz idéia de passar os últimos dias de suas vidas em Praia Grande, cidade localizada na Baixada Santista, Litoral de São Paulo! Até aí, tudo bém, mas eles não contavam com um detalhe crucial : HOJE EM DIA, OS CASAMENTOS NÃO DURAM PRA SEMPRE!


Acho que é desnecessário dizer que o meu casamento foi pro saco, né? Logo, após a separação, acabei voltando pro único lugar onde você pode colocar sua cabeça no lugar após uma traumática separação : a casa dos seus pais, pois os pais nunca negam "teto" pros filhos que se foderam na vida, né?


Outra coisa que eles não contavam é que o "ambiente" em que eles haviam se acostumado não seria totalmente propício pro filho que acabava de sair de uma merda e entrado numa bosta, o que foi totalmente o meu caso! Mas meu falecido pai sempre me dizia que "antes de eu falar mal de um lugar, estude a história do local no intuito de encontrar alguma coisa boa pra se falar"! Mais ou menos a mesma coisa que a gente ouvia e aprendia nas aulas da escola...contudo, a história que ouvíamos e aprendíamos na escola sempre tiveram importância!


Como bom filho que sou, passei então a investigar esse estranho fenômeno que se sucedeu aos meus pais durante meu casamento, pois não é possível que alguém em sã consciência largue a vida que tinham em São Paulo pra vir morar num buraco sem fundo que é a Praia Grande! E, estudando a história do local, cheguei a conclusão de que NÃO HÁ NADA DE BOM PRA SE FALAR DAQUI, só pra deixar meu falecido pai mais contrariado ainda!

Pra começo de conversa, Praia Grande era uma biboca que pertencia ao município de São Vicente, ou seja, tudo aqui dependia da primeira cidade fundada no Brasil! Tudo mesmo! Saúde, transporte, educação, segurança, saneamento básico, etc! E. claro que São Vicente se preocupava mais em desenvolver a sua cidade do que essa boca de porco em que vivo! A coisa começou a tomar uma nova forma quando alguns panacas (entre eles Júlio Secco de Carvalho, Nestor Ferreira da Rocha, Heitor Sanchez Toschi, Israel Grimaldi Milani e Dorivaldo Loria Jr.) resolveram fazer um movimento pra pedir a emancipação política de Praia Grande! Na certa, esses fulanos acima citados não deveriam ter absolutamente porríssima nenhuma de mais importante pra fazerem de suas vidinhas medíocres, pois o resultado desse movimento foi catastrófico!

Lógico que São Vicente não queria perder a teta, ou melhor, a cidade, afinal Praia Grande possui 25 quilômetros de extensão e deixar essa considerável faixa de terra nas mãos de incapazes seria um desastre, mas o movimento seguiu em frente e, em meio a tanta resistência, conseguiu sua emancipação política em 19 de janeiro de 1967! Resultado : em 48 anos, São Vicente cresceu vultosamente, transformando se em um dos locais mais visitados pelos paulistanos no verão, ao passo que em Praia Grande, a única coisa que cresce é o meu ódio pela cidade!

Após a emancipação política, Praia Grande começou a admitir coisas diferentes do que a vizinha São Vicente como, por exemplo, permitir que os turistas paulistanos desembarcassem em suas praias aos milhões, vindos em dezenas de milhares de ônibus que desciam a Serra do Mar aos finais de semana, trazendo gente muito afim de pegar um bronze, tomar um banho de mar e...FAZER FAROFA! Com isso, Praia Grande ganhou o honroso título de "Paraíso dos Farofeiros"! Enquanto as pessoas mais, digamos assim, glamorosas e sofisticadas (e consequentemente, mais educadas também), iam passar o verão nas praias de Santos, São Vicente, Guarujá, Mongaguá e Itanhaém, a ralé mulambenta vinha pra Praia Grande! A primeira coisa que eles faziam ao desembarcar na praia era procurar uma barraquinha pra guardar suas coisas e pegar umas cadeiras de praia e guarda sol, pois não traziam nada de casa, com exceção da comida e bebida! E tome cerveja em lata, caipirinha guardada em pote de maionese, batida de maracujá rançosa acondicionada em garrafa de água de plástico e por aí vai! A comida então...ah, era um festival bem gourmet, mesmo! Feito para os paladares mais requintados e refinados! Sabe aquele sanduiche de pão de forma com diversas opções de recheio que você poderia escolher ? Então, tinha manteiga, ovo frito, mortadela, presunto, queijo, patê de salsicha, etc! Os mais metidos costumavam levar marmitex! Mas nada supera o "clássico dos clássicos", afinal, quem vinha em Praia Grande precisava ser batizado no ritual sagrado do FRANGO ASSADO COM FAROFA! Imagina toda aquela galera reunida debaixo do guarda sol comendo frango assado frio e lambendo os dedos depois? Tudo regado com cerveja quente, caipirinha sem gelo e refrigerante barato e sem gás! Após tanta gastronomia, um banho de mar pra aliviar a ressaca! Alguns aproveitavam o ensejo e urinavam na praia e outros mais abusados já faziam diferente : eles CAGAVAM na água do mar! E quando iam embora, deixavam pra trás o rastro de sua passagem por aqui : o LIXO que se acumulava na areia! Latas de cerveja vazias, pratos e copos descartáveis, guardanapos, fraldas, papel higiênico, bitucas de cigarro, ossos de frango, etc! Tudo ecologicamente incorreto (se preferir, tudo incocôlogicamente correto)!

Não demorou muito pra cidade ganhar o estigma de "cidade litorânea mais suja" do país", afinal, todo final de semana os ônibus desciam a Serra do Mar em comboio pela Via Anchieta trazendo mais e mais sujeira! Mas isso não era nada de grave aos olhos da administração da cidade que estava nascendo, pois algum iluminado declarou que, apesar da farofa, "o turismo em Praia Grande estava crescendo em velocidade surpreendente, ao passo que as cidades vizinhas estavam tendo sua cota de turistas diminuída e isso era muito importante pra cidade"! Das duas, uma : quem falou isso deveria ser um deficiente mental crônico ou foi uma piada muito daquelas sem graça, pois não consigo imaginar como que a sujeira pode lhe oferecer algo de importante! Enfim, a semente foi plantada na cidade e hoje suas ramificações são notórias! Pra todo lugar que você olha nos 25 quilometros de extensão de Praia Grande, você encontrará uma lata de cerveja vazia e restos do frango com farofa! E não pensem que acabou, não! Só me deem um tempo pra eu poder me acalmar um pouco, pois falar de Praia Grande exige muita disciplina zen!